O câncer de pulmão, historicamente associado a prognósticos sombrios, vem ganhando novas perspectivas graças ao avanço na pesquisa oncológica. Um estudo recente revelou que mais da metade dos pacientes com câncer de pulmão avançado tratados com o lorlatinibe, um medicamento oral, conseguiram manter a doença sob controle por sete anos. Essa descoberta representa um marco significativo, especialmente considerando que a doença é a principal causadora de mortes por câncer no Brasil, com cerca de 31.237 óbitos anualmente, conforme dados do INCA.
O lorlatinibe se destaca por sua ação direcionada a um subtipo específico de câncer de pulmão, caracterizado por uma alteração genética conhecida como rearranjo de ALK, que afeta apenas 3% a 7% dos casos. Embora o número de pacientes elegíveis para esse tratamento seja relativamente pequeno, o impacto dos resultados é inegável. Pacientes como Paula Piteri, diagnosticada aos 38 anos e mãe de três filhos, relatam ter recuperado a esperança e a perspectiva de futuro após iniciar o uso do medicamento.
Entretanto, o entusiasmo gerado por esses avanços é ofuscado por um obstáculo crítico: o alto custo do lorlatinibe, que pode alcançar R$ 37 mil por mês. Atualmente, o medicamento não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), limitando o acesso a aqueles que possuem planos de saúde ou que conseguiram judicialmente a cobertura. A situação gera um debate sobre a equidade no acesso a tratamentos inovadores, enquanto muitos pacientes permanecem sem alternativas eficazes.
O mecanismo de ação do lorlatinibe, que bloqueia uma proteína responsável pela proliferação celular, representa uma mudança de paradigma na abordagem do câncer. Ao focar em alterações genéticas específicas, os oncologistas estão mudando a forma como a doença é tratada. Contudo, a necessidade de testes genéticos para identificar a mutação de ALK e a falta de acesso a esses testes complicam ainda mais o cenário. O oncologista Gustavo Schvartsman destaca que, mesmo com os avanços, a trajetória de tratamento ainda enfrenta desafios significativos, como a resistência do tumor e os efeitos colaterais associados ao uso do medicamento.
Os dados do estudo, embora encorajadores, revelam que 45% dos pacientes não apresentaram sucesso com o tratamento, levantando questões sobre a eficácia em diferentes perfis de pacientes. Além disso, cerca de 52% relataram efeitos adversos no sistema nervoso central, o que indica a necessidade de uma abordagem cuidadosa e personalizada no tratamento. Assim, apesar dos avanços, a luta contra o câncer de pulmão ainda requer atenção e uma abordagem mais inclusiva para garantir que todos os pacientes tenham acesso a diagnósticos precisos e tratamentos adequados.
A discussão sobre a incorporação do lorlatinibe no SUS ainda está pendente, e a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) já se manifestou contrária a sua inclusão devido ao seu alto custo. Isso gera um sentimento de frustração entre os especialistas e pacientes, que veem uma terapia promissora como uma possibilidade distante para muitos. A esperança é que, em um futuro próximo, mais pacientes possam se beneficiar desse avanço, transformando a realidade do câncer de pulmão no Brasil.


