sexta-feira, 16/10/2026

Reflexões sobre o SUS: lições da crise do sistema de saúde britânico e a centralidade do médico no Brasil

A médica Ana Luíza Gibertoni Cruz, que tem experiência tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil quanto no National Health Service (NHS) do Reino Unido, ilustra bem os desafios enfrentados por ambos…

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A médica Ana Luíza Gibertoni Cruz, que tem experiência tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil quanto no National Health Service (NHS) do Reino Unido, ilustra bem os desafios enfrentados por ambos os sistemas de saúde pública. Formada no Brasil e com uma carreira que inclui a atuação em Campinas e agora em Oxford, onde trabalha para lidar com um dos problemas mais críticos do NHS — a sobrecarga dos prontos-socorros —, Ana Luíza compartilha uma visão sobre a crise que assola o sistema britânico e suas implicações para o Brasil.

O NHS, criado em 1948, é frequentemente visto como um modelo de saúde pública, mas atualmente enfrenta uma grave crise, resultado de anos de subfinanciamento, aumento da demanda e um envelhecimento populacional que traz desafios adicionais. Em resposta a essa realidade, o governo britânico anunciou um plano de dez anos, com foco na transferência de atendimento para as comunidades, digitalização e prevenção de doenças. As lições que emergem desse contexto são relevantes para o Brasil, que também lida com desigualdades e dificuldades semelhantes em seu sistema de saúde.

Um dos pontos críticos que Ana Luíza destaca é a desigualdade de acesso a serviços de saúde, que se manifesta tanto no NHS quanto no SUS. Enquanto no Reino Unido as diferenças entre as nações constituentes resultam em variações significativas no atendimento, no Brasil a disparidade é ainda mais acentuada devido à extensão territorial e às disparidades econômicas. A médica observa que, em sua prática cotidiana, percebe como a desigualdade se reflete nos tipos de pacientes que chegam ao hospital em Oxford.

Outro desafio comum a ambos os sistemas é a gestão das filas e a eficiência no atendimento. No NHS, longas esperas por consultas e tratamentos se tornaram uma realidade, com mais de 6 milhões de pacientes aguardando atendimento. O Brasil, por sua vez, enfrenta um problema semelhante, onde a ampliação do acesso não se traduz necessariamente em qualidade de atendimento. Especialistas sugerem que fortalecer a atenção primária poderia ajudar a qualificar as filas de espera, priorizando quem realmente necessita de cuidados mais complexos.

Além disso, o envelhecimento da população é uma preocupação compartilhada. A experiência do NHS em integrar saúde e assistência social pode servir de modelo para o Brasil, que está enfrentando um aumento acelerado na população idosa, mas com menos recursos e infraestrutura para lidar com essa transformação. A médica Martha Oliveira enfatiza que o Brasil, embora enfrente desafios semelhantes ao Reino Unido, o faz em uma escala muito maior e com menos tempo para se preparar.

Por fim, a questão do financiamento se destaca como um ponto crucial. O Brasil investe significativamente menos em saúde por habitante em comparação ao Reino Unido, o que complica a implementação de reformas necessárias. A experiência britânica sugere que a solução não reside apenas em aumentar os gastos, mas também em como e onde esses recursos são aplicados. Assim, as lições do NHS podem servir não apenas como um alerta, mas também como um guia para o futuro do SUS, que precisa urgentemente revisar suas estratégias de gestão e financiamento para atender às demandas de uma população em envelhecimento e em busca de serviços de saúde mais equitativos e acessíveis.